Félix: o eterno defensor
01/12/2005 -
Esportes
O goleiro do time canarinho no tri de 70, fala de seleção brasileira, Copa do Mundo e categorias de base
Diz a cartilha popular do futebol que a posição de goleiro é a mais ingrata e porque não dizer injusta em uma partida. É preciso extremo esforço para ser minimamente reconhecido. Em contrapartida, uma única falha durante um jogo qualquer pode comprometer a reputação do atleta durante toda sua carreira.
Félix Mielli Venerando foi um desses ilustres injustiçados. “Infelizmente eu fui o jogador mais criticado dentro da seleção brasileira, apesar de ter sido titular na eliminatória toda e tomar só dois gols”, explica o ex-goleiro. A seleção brasileira da qual ele fala é a seleção Canarinho, tricampeã do mundo em 1970, no México. As eliminatórias das quais ele se lembra são as que classificaram o Brasil para a mesma Copa, depois do fiasco de 1966 na Inglaterra. E o goleiro daquela época era conhecido apenas como Félix.
O arqueiro que ficou marcado na história do futebol brasileiro por sua participação na campanha do Tricampeonato, quase ficou de fora daquela copa. “Quando saiu a lista, o João Saldanha me tirou e levou dois goleiros novos que tinham surgido naquele ano: o Ado e o Leão. Mas aí, quando o Saldanha saiu e entrou o Zagallo, ele me reconvocou e eu tive a felicidade de ganhar a posição como titular”, diz com semblante aliviado.
A imprensa da época chegou a chamá-lo de “ponto-fraco” da seleção. Félix demonstra um misto de mágoa e de orgulho ao falar do resultado final desse relacionamento conturbado. “Joguei a copa inteira e ouvi pedidos de desculpas de muitos jornalistas porque erraram quando disseram que eu era fraco. Eu sempre fui um cara simples, quem me conhece sabe. Hoje eu deixo a modéstia de lado e digo: na época eu era o melhor do Brasil e disputei o título de melhor do mundo”, desabafa o ex-atleta.
Nascido na véspera de Natal do ano de 1937, o paulistano Félix deu seus primeiros passos como jogador de futebol no time amador do Juventus. A primeira experiência profissional veio aos 17 anos, na Portuguesa de Desportos, clube em que ele atuou por treze anos. “Fui o jogador que mais tempo ficou dentro da Portuguesa. Depois me transferi para o Fluminense e lá eu fiquei mais de dez anos como atleta. Foram vinte e três anos de carreira profissional”, conclui o ex-goleiro. A experiência e a paixão pelo futebol levaram Félix a se manter ligado ao esporte até hoje. Ao lado de ex-jogadores como Coutinho e Badeco, o jogador atua na direção do Mais Esporte, programa da Prefeitura de São Paulo voltado a inclusão social de crianças e jovens através do Esporte. O programa é uma iniciativa da Secretaria de Esportes, Lazer e Recreação da cidade.
O trabalho é gerenciado em parceria com a Cooperesporte, cooperativa formada por ex-atletas que trabalham no programa. “São ex-atletas contratados para dar aula de futebol na periferia, para tirar a garotada da rua. E a nossa felicidade é que nós estamos com quase doze mil crianças. E não tem só futebol. Tem atletismo, vôlei, basquete, capoeira, boxe. É um projeto muito grande, abrangendo quase toda a periferia de São Paulo e estamos muito felizes fazendo este trabalho”, esclarece.
Trabalhando diretamente com as categorias de base do esporte, Félix só abandona o otimismo e a alegria quando se lembra das dificuldades dos garotos na hora de ter acesso aos grandes clubes. “Hoje, pro garoto entrar em um time é muito difícil porque os empresários assumiram, tomaram conta do futebol brasileiro. Garotos de 13, 14 anos já têm contrato assinado com empresário, então isso dificulta. Mesmo assim estamos lutando para que esses garotos que vêm da periferia, que vêm da favela possam entrar em alguma equipe”, revela. No entanto, dois atletas formados pelo Mais Esporte já conseguiram lugares de destaque, segundo Félix. Um deles está no Santos e o outro treina em um time da França.
Apesar das dificuldades encontradas nas categorias de base, o ex-goleiro acredita que hoje em dia é mais fácil ser jogador de futebol. “Hoje é mais fácil ser jogador porque você não tem tanta qualidade, tem só quantidade. Antes você tinha quantidade e qualidade. E hoje se você é só um pouquinho ‘fora de série’ já vai pra tudo quanto é lado. Na minha época não. Eram todos da seleção com um excelente futebol. Fora os que não foram convocados”, raciocina.
Em 1970, a seleção brasileira campeã no México, cujo gol era defendido por Félix, tinha no grupo de convocados apenas jogadores que atuavam por equipes do país. Nas últimas convocações de Carlos Alberto Parreira para o time que deve jogar a Copa da Alemanha em 2006, a seleção titular tinha apenas jogadores que atuam em clubes da Europa. Para Félix, existe influência direta dos trabalhos de categoria de base nesse processo. “O garoto começa a surgir e os clubes do Brasil não têm ‘bala’ pra agüentá-lo. A profissão hoje está muito inflacionada. Então o garoto tem um pouquinho mais de habilidade, pronto!”, exclama o tricampeão.
É possível ensinar alguém a ser um bom jogador? Félix parece não ter dúvida na hora da resposta: “Não, isso aí nasce com o garoto. É um dom mesmo”. Para ele, o trabalho de categoria de base perfeito não é ensinar a ser um bom jogador, mas sim “orientar o garoto que é craque, dar um seguimento de vida pra ele. Dar uma orientação para que ele não desvie daquela trajetória sonhada. Para que não entre no vício, nas drogas. É o que a gente faz dentro do Mais Esporte”, completa.
As dificuldades de manutenção do programa; os “esquemas” de empresários rondando as categorias de base; a falta de reconhecimento da imprensa. Nada disso parece desanimar Félix. “Mesmo que um garoto saia daqui na mão de um empresário, mesmo que a gente não tenha as mesmas condições de encaminhá-lo, é uma satisfação do mesmo jeito. Porque tiramos o menino do mau caminho”.
Mesmo longe dos campos de futebol fica claro que Félix continua sendo um incorrigível defensor de metas.
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